Aprenda a boa infografia

Arte e infografia

“O céu estrelado” de Van Gogh e uma representação da via láctea da Nasa.
Céus diferentes. Forma e função.

Estas primeiras linhas tentam explicar um pouco sobre a intenção e a motivação deste blog. É uma história relativamente curta sobre menos reação e mais ação. No final de 2012 fui surpreendido com um generoso convite para palestrar no INFOLIDE, evento super bacana sobre jornalismo, design e tudo o que a união destas duas distintas áreas pode produzir. A edição de 2012 tinha como foco a tão celebrada e discutida infografia.

Na ocasião pensei ter havido algum tipo de engano já que, nem de longe, me considero um profissional qualificado no que diz respeito ao tema. Minha atuação na área resume-se a 14 anos no meio do jornalismo online e poucos anos dedicados de fato ao estudo e a prática da infografia. De qualquer maneira, me senti lisonjeado e fui preparado para expor tudo o que vi e senti nos últimos anos trabalhando com o tema.

Tive o privilégio de topar com muitos amigos e colegas de profissão que são exímios conhecedores e disseminadores da boa infografia e, posto isso, não me arrisco a considerar-me como um arauto da verdade ou algum tipo de profundo conhecedor nessa área. Meus conhecimentos são de puro autodidatismo, curiosidade, fascinação e prática e, por isso, peço que todos que por aqui passarem façam o grande favor de debater, questionar e, acima de tudo, corrigir-me se eu estiver falando alguma bobagem. O campo de comentários lá embaixo foi criado, creio eu, justamente para esse propósito.

Voltando a minha pequena história, me recordo que, durante o Infolide, proferi vários impropérios sobre a explosão da infografia nos dias atuais. Uma frase que bem me recordo é “Acho que estamos sendo invadidos por um monte de infográficos de merda”. Eu sei, a frase é forte e provoca reação. Não foi uma maneira muito elegante de mostrar minha inquietação com a qualidade duvidosa dos milhares de infográficos pipocando nas páginas de jornais e da internet todos os dias. Mas, parando pra pensar, percebi que a qualidade sofrível era efeito de uma única causa: a falta de orientação e instrução. Bingo! As pessoas, meios de comunicação, ongs, empresas e meio mundo querem produzir infográficos mas não possuem o conhecimento básico de como fazê-lo e, por isso, a chuva de infográficos e visualizações saídos de um pesadelo no que diz respeito tanto a forma quanto a função.

Hoje, temos  pouco ensino formal da infografia  no meio acadêmico. Um dos raros exemplos que conheço é o trabalho incrível e primoroso de Alberto Cairo no sentido de instruir formalmente dentro das instituições, inclusive em cursos online pioneiros.

Quando o assunto é Brasil, a coisa fica ainda pior. Os cursos de jornalismo não estão preparados para o ensino da infografia. E isso é uma questão perfeitamente compreensível já que a infografia é uma área multidisciplinar. O sujeito infografista é alguma coisa indefinida entre design, jornalismo e tecnologia da informação (e provavelmente muitas outras áreas afins). A própria prática da infografia, principalmente a interativa, envolve especialidades e conhecimentos distintos. Um bom infográfico ou visualização de dados irá envolver jornalistas, especialistas em análise de dados, designers, ilustradores e programadores para que se tenha um resultado efetivo e que conte de fato uma boa história.

Esse espaço foi criado justamente para tentar, minimamente, levar todo o conhecimento possível a quem deseja estudar, entender e trabalhar com o tema. No lugar de ficar batendo na cara de quem faz infografia ruim, a missão aqui é tentar guiar, ensiar e também aprender.

Nas poucas palestras que tive a honra de falar sobre o tema, sempre comecei com essa pequena provocação: Infografia não é arte. Infografia é, acima de tudo, jornalismo, fatos, datos e boas histórias para se contar. A forma não deve determinar a função. Infografia não serve para deixar uma pauta ou matéria mais bonita. Se sua matéria precisa de uma flor em cima para ficar atraente, ela é ruim e desinteressante. Alberto Cairo, em seu espetacular livro “The Functional Art” (leitura recomendadíssima) toca nessa questão crucial. A infografia, acima de tudo, deve informar de maneira clara e objetiva. Também temos aqueles que defendem que a infografia pode ser arte. E sim, pode! Mas não como meio de comunicação e sim, de expressão. Jaime Serra (eleito o infografista mais influente nos últimos 20 anos no prêmio Malofiej) provou brilhantemente que infografia pode ser arte com seu trabalho primoroso na coluna do La Vanguardia onde atua como uma espécie de cronista visual.

Outra questão muito debatida hoje em dia diz respeito as ferramentas e tecnologias. Pois bem, ferramentas e tecnologias são apenas isso: ferramentas e tecnologias. O mais importante é o resultado. Não entro nas discussões (que, particularmente acho tolas e infantis) sobre se é melhor usar o flash,  html5, gif animado, raios laser, uma britadeira ou o raio que o parta. Isso não interessa. Uma boa infografia deve informar claramente e cumprir sua função. E para isso é preciso planjamento e muito trabalho anterior a tela de um computador.  Depois de muita análise, esboços e conclusões, finalmente parte-se para buscar uma ferramenta que se adeque melhor a execução da ideia. Um infográfico  muito bem planejado, desenhado sobre um quadro negro é muito, muito mais valioso que um infográfico equivocado elaborado com as mais modernas tecnologias que planeta terra pode oferecer. Aliás, isso é um erro crasso que vejo muito nos dias atuais. A preocupação excessiva com o “como fazer” se sobrepondo ao “o que fazer”. Isso resulta em visualizações deficientes, muitas vezes recheadas de erros grotescos pois a preocupação maior está apenas na execução, no meio e não no fim. Tenho visto o resultado de muitos hackatons por aí que deixam qualquer infografista de cabelo em pé. Uma escovação de bits infindável para produzir um resultado, geralmente, pífio.

Outra bola da vez da qual muito se comenta hoje é a tal da era dos dados. Explico. Hoje temos uma infinidade de dados incrível a nosso dispor. Tudo sobre tudo é guardado em algum lugar. E isso remete a grande onda atual: o famigerado BIG DATA. Segundo os entusiastas, os dados vão salvar o mundo, as árvores e as baleias. Especialistas em BIG DATA (seja lá o que isso signifique) são contrados a peso de ouro. Os governos abrem seus dados e todos aplaudem como se isso fosse mudar o mundo da noite para o dia. Eu lamento, mas isso não vai acontecer tão cedo. Dados isolados não são nada. É preciso contexto, cruzamento, interpretação e análise. Esse é outro grande erro que vemos solto ao vento todos os dias: dados sem nenhum tipo de cruzamento, absolutos como se fossem grandes verdades, ignorando dados correlacionados que podem mudar completamente a interpretação de uma visualização.

Uma pequena metáfora idiota para entender a questão do BIG DATA e dos dados abertos. Imagine que os dados são alimento e que o grande problema do mundo é a fome. Ótimo, temos um começo. Digamos que todos os dados (alimento) do mundo agora são acessíveis para todos. Oba! Ninguém mais passa fome. Não. Errado. O alimento (assim como os dados) está em seu estado “cru”: plantações de soja, rebanhos de gado (pra quem curte carne vermelha sem ressentimentos), frutas e assim por diante. O ponto onde quero chegar é que esse suposto alimento acessível para todos (os dados) não está tão acessível e fácil assim. Ainda é preciso tratamento, logística de distribuição, processamento e tantas outras coisas até chegar a boca dos cidadãos famintos. É preciso pensar onde os dados são mais necessários e urgentes, é preciso cruzá-los com outras informações para, de fato, se ter um quadro de como matar a fome no mundo de forma prática e eficiente. Portanto, a grande questão é que dados em seu estado cru, mesmo que acessíveis a todos, não servem pra muita coisa.

Por fim, é isso. Tem muita polêmica e muita discussão saudável pela frente. Espero que todos gostem e participem. Lembrando que a intenção aqui não é vomitar regras e falar para especialistas. O objetivo maior é levar conhecimento básico para quem não sabe nada e está dispoto a debater e aprender. A intenção é explicar tudo desde o princípio entrando em questões como ética jornalística, design, boas práticas e mais um sem número de questões. Espero sinceramente que todos curtam e façam bom proveito. Um abraço e até a próxima.

Lição número 1:
– Infografia é multidisciplinar
– Forma não deve ditar a função. Infografia não é enfeite.
– Ferramentas são apenas ferramentas. Escolha a que melhor atenda a sua ideia/projeto
– Desenhe, esboce e fique longe do computador até ter uma boa compreensão de que história você quer contar e como quer contar
– Dados não são nada sem contexto, análise, cruzamento e interpretação
– Acabar com a fome no mundo não é tarefa fácil

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2 pensamentos sobre “Aprenda a boa infografia

  1. Muito bom artigo! Conhece a nova plataforma para criar infográficos que saiu recentemente? Chama- se Genial.ly Qual é a sua opinião?

  2. Gustavo Giacomo disse:

    Tenho interesse em fazer um curso específico de Infografia. Qual é o mais completo e recomendado?

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