Infografia e dataviz – diferenças, cuidados e dicas para quem quer se aventurar

Uma dúvida recorrente que passa pela cabeça de muitas pessoas que ingressam na área de infografia e visualização de dados diz respeito ao que seria exatamente a diferença entre ambas. Tentar esclarecer essa questão antes de qualquer coisa é um bom ponto de partida.

Algumas das definições mais claras e consistentes a respeito , pude encontrar no livro The Functional Art de Alberto Cairo e, complementarmente, em um post de Robert Kosara no eagereyes.org.

Observando os argumentos de Cairo e Kosara conclui-se que alguns afirmam que ambas são diferentes partindo do principio de que a infografia consiste em apresentar informação por meio de gráficos estatísticos, mapas e diagramas e a visualização utiliza como premissa a criação de ferramentas visuais que possibilitam uma exploração em diferentes níveis dos dados ou fatos que se pretende apresentar.

Segundo Cairo, ambas pertencem a um mesmo grupo mas estão em lados opostos de uma mesma linha onde o que distancia uma da outra é justamente a questão de apresentar os dados ou apresentá-los de forma que possam ser explorados em uma navegação interativa (na internet) ou ordem de leitura estática (no impresso).

Kosara aprofunda-se na definição de visualização recorrendo a alguns pré-requisitos:

  • Uma visualização baseia-se em dados não visuais. Parte-se de dados abstratos ou não exatamente visíveis e apresenta-se o resultado de forma gráfica.
  •  O resultado necessariamente produz uma imagem. Óbvio porem importante. Se a imagem é uma pequena parte do resultado não estamos falando de uma visualização.
  • O resultado deve ser compreensível. A visualização deve fornecer meios para que se entenda e aprenda algo com os dados apresentados.

Posto isso partimos do princípio que visualização e infografia tratam sim de uma mesma área do conhecimento.

A infografia, geralmente, tem uma característica “enciclopédica” no sentido de que pode explicar algo mais claramente de uma maneira primordialmente visual. No lugar de escrever a respeito, mostra-se algo.

O que se enquadra bem nestas características são, por exemplo, explicações e diagramas de como funciona uma máquina ou como acontece um processo. Basicamente a infografia conta uma história com início meio e fim e, muitas vezes, apresenta uma “moral da história”, uma conclusão a qual deseja-se que o leitor/observador perceba.

Aliás, uma infografia geralmente tem um corte editorial para contar um história ou apresentar um fato. Geralmente, foca-se em uma parte (a essência) de uma história maior. Um bom exemplo de uma boa história que todos queriam contar? O resgate dos mineiros chilenos em 2010 na mina San José. Naquele momento seria possível contar uma história extensa mas o que a maioria das pessoas queria entender era como seria o processo de retirar 33 pessoas soterradas a quase 700 metros de profundidade com uma capsula (Fênix 2 ) projetada pela Nasa. Nesse momento entra uma parte muito importante no que diz respeito a infografia e visualização: a edição.

Uma curiosidade: antes do famoso bilhete com a inscrição “Estamos bien en el refugio, los 33″ vir a superfície, uma broca foi pintada de vermelho pelos mineiros soterrados. Só assim descobriu-se que existiam pessoas vivas la embaixo.

O resgate dos mineiros do Chile (2010) | iG

O resgate dos mineiros do Chile (2010) – iG – Clique na imagem para acessar

Muitas vezes é fácil perder-se em meio a tanta informação e querer mostrar tudo o que é possível em um gráfico. Mas é preciso coerência e bom senso editorial para produzir uma peça enxuta e ao mesmo tempo, completa no sentido de mostrar o que é importante naquele momento.

Existe um fio condutor e uma conclusão a respeito que se revela aos olhos do leitor/observador. Isso não quer dizer que não possamos ver por aí uma infografia que trabalhe também com dados e números com a intenção de explicar algo de uma forma mais visual. Você pode, por exemplo, explicar como funciona o motor de um avião ou como se troca uma lâmpada. Um manual de montagem de um móvel é um bom exemplo do que seria uma infografia nesse sentido.

Já a visualização, basicamente, trabalha com informação abstrata, dados, números, estatísticas e trata isso de uma forma visual para que se torne compreensível. Se estiver em um meio interativo, pode possibilitar vários níveis de exploração, comparação e correlação de dados para que o leitor/observador possa, além de ter uma primeira conclusão acerca do assunto, descobrir novas histórias e tecer suas próprias conclusões a respeito.
Um exemplo de infografia na sua definição mais clara pode ser visto em um dos infográficos que o iG produziu em 2011: As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça. (A Esquadrilha da Fumaça é o esquadrão de demonstração da Força Aérea Brasileira).

As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça - iG - 2011

As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça – iG – 2011 – Clique na imagem para acessar

A intenção neste caso era explicar visualmente como eram realizadas as principais manobras do grupo. Algo totalmente visual. Ou seja, nos valemos de recursos gráficos (e interativos) para reproduzir as manobras na tela do computador e para também fornecer algumas informações básicas sobre o esquadrão. Imagine tentar explicar isso tudo em apenas palavras. Tarefa difícil não? Perceba que não existem exatamente “dados” mas sim um processo, um acontecimento passível de ser melhor traduzido em imagens. O infográfico foi premiado com medalha de ouro na vigésima edição do Prêmio Malofiej (o maior prêmio de infografia do mundo) em 2012 dividindo o palco com gigantes como NY Times e National Geographic. Um dos maiores orgulhos da equipe.

No exemplo abaixo, podemos ver um caso claro de visualização de dados. Um gráfico que mostra o movimento dos táxis na cidade de Nova York. Um mapa de calor mostra, ao longo das horas do dia e dias da semana quais são os pontos da cidade onde acontecem mais ou menos corridas. Todos esses dados foram coletados e, provavelmente, plotados em uma tabela. Imagine a dificuldade de interpretar essa tabela? É uma informação muito abstrata mas, quando plotada sobre o mapa, mostra claramente quando e onde é mais fácil ou difícil conseguir um táxi na cidade .

Tracking Taxi Flow Across the City – New York Times – 2009

Tracking Taxi Flow Across the City – New York Times – 2009 – Clique na imagem para acessar

Agora que conseguimos esclarecer um pouco do que se trata cada vertente de uma mesma ciência vamos partir para algumas dicas sobre como produzir uma boa infografia ou visualização.

Que história você quer contar e qual a melhor forma de contá-la?

Um dos grandes equívocos que percebo hoje em dia é pensar a infografia ou visualização como um recurso ou meramente estético, ou meramente tecnológico ou meramente editorial. Trata-se, de fato, de um pouco dos três. Mas o que vai definir qual o melhor viés, ou viés predominante, é qual a melhor forma de apresentar os dados e fatos e o que se pretende contar.

Designers desavisados pensam em infografia como algo puramente estético, um recurso para deixar a matéria mais “bonita” e isso gera um monstro que costumo chamar de matéria ilustrada com números e figuras chamativas. Números gigantes, ilustrações coloridas e muito glitter para contar uma história rasa, sem nenhum tipo de conclusão ou comparação realmente útil.

Desenvolvedores muitas vezes pensam na infografia/visualização como uma questão tecnológica. Encantam-se com, por exemplo, uma biblioteca de java script ou qualquer outra coisa semelhante e acreditam que aquele recurso em especifico vai lhes proporcionar um resultado incrível nunca antes visto.

Jornalistas em muitas ocasiões pensam na infografia como uma maneira de tornar suas matérias mais chamativas visualmente e não como uma ferramenta para tornar a compreensão muito mais fácil. As vezes querem encaixar qualquer coisa dentro de um infográfico como, por exemplo, uma pauta denúncia com fotos reveladoras, vídeos incriminantes, áudios exclusivos e textos inflamados e analíticos. Porém, tudo isso reunido não passa de uma pagina de internet e não se trata de uma infografia.

Nos anos em que estive a frente da equipe de infografia do internet group (iG) tínhamos como mantra em nossa equipe a seguinte definição: não importa a forma (estética ), o que importa é de que maneira vamos mostrar. A equipe possuía ilustradores, jornalistas, designers e programadores e todo, absolutamente todo infográfico era discutido entre toda a equipe para entendermos se partíamos de uma tecnologia, um desenho ou um corte editorial específico. Cada tema pedia um tipo de abordagem. Alguns infos partiam da equipe de programação, outros dos designers e assim por diante.

Outra questão importante: discutir desde os primeiros esboços se a solução estava realmente clara para um não especialista. O melhor exercício que pode-se fazer nesse momento é esquecer que você é um especialista em design, infografia ou mesmo especialista no assunto em questão e colocar-se (SEMPRE) no lugar do leitor. Com isso você começa a se perguntar coisas que nunca se perguntou antes. Coisas como se aquela aba realmente parece uma aba, se o gráfico esta claro e legível, se os termos que você esta utilizando são conhecidos do grande publico e assim por diante.

A tentação de encontrar um recurso tecnológico que atenda razoavelmente o que você deseja fazer e decidir logo no principio em seguir em frente com este recurso, limita. Ao longo do caminho você vai se deparar com decisões de design as quais a tecnologia escolhida não permite e então o trabalho começa a ficar pobre pois muitas das soluções que poderiam ser incríveis ficam para trás por pura limitação técnica.

Um exemplo claro (e atual) de uso equivocado da tecnologia é o inexplicável fetiche por mapas. Google e tantos outros tem sua parcela de culpa por tornarem nossa vida tao fácil disponibilizando meios para que possamos colocar qualquer coisa em um mapa. Mas antes de colocar qualquer dado ou fato em um mapa é preciso se perguntar: A localização geográfica é realmente importante nesse caso em particular? Muitas vezes a resposta é não.

Vamos pegar como exemplo um projeto colaborativo e bem intencionado que surgiu em São Paulo em 2012. O projeto Fogo no barraco. Não vou entrar aqui no mérito da questão de que existe ou não uma mafia da industria imobiliária agindo de forma vil e desapropriando áreas pobres com incêndios criminosos para abrir espaço a grandes empreendimentos imobiliários. De qualquer forma, a ideia do projeto é mostrar algo perto disso. Sim, é nobre. Parabéns aos envolvidos. Mas a execução, em se tratando de visualização da dados, foi catastrófica.

Fogo no barraco – 2012

Fogo no barraco – 2012 – Clique na imagem para acessar

Ao abrirmos o gráfico não é possível visualizar absolutamente nada em um primeiro olhar. O que vemos são vários pontos de incêndio sobre o mapa de São Paulo em uma serie história pouco clara. E mesmo clicando e explorando as possibilidades do gráfico não é possível para uma pessoa entender, por exemplo, qual região teve maior valorização ao longo dos anos e se essa região, em função disso, sofreu um maior numero de incêndios no mesmo período. Não conseguimos identificar tendências.

É um gráfico que foi, aparentemente, guiado pela escolha da tecnologia (e pela urgência da denúncia ) que não esclarece quase nada mesmo ao observador mais atento. A localização geográfica exata dos incêndios é realmente importante para entender o todo? Uma serie de gráficos de linha (eles existem mas estão escondidos em um clique de mouse em cada ponto) não seria uma forma mais direta e clara de comparar regiões? Onde é possível encontrar a relação de incêndios e valorização das regiões de forma gráfica? Nesse caso, claramente, o mapa mais atrapalha do que ajuda. Observar o mapa não possibilita nenhum tipo de conclusão. Todas as perguntas que o gráfico poderia responder não podem ser respondidas de maneira fácil e rápida por meio da exploração do gráfico.

Agora um bom exemplo de uso de mapa: NY Times valeu-se dos dados de imigração de 1880 a 2000 para mostrar uma serie histórica da ocupação de imigrantes em seu território. Em uma primeira olhada já é completamente possível perceber quais grupos predominam em que regiões.

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Immigration explorer – 2009 – New York Times – Clique na imagem para acessar

A forma para mostrar esse primeiro retrato da imigração foi uma codificação por cores sobre cada região. Logo na primeira leitura, percebemos que em 2000 a costa oeste e o sul foram ocupados por imigrantes de países latino americanos, principalmente México, por sua proximidade geográfica.

Também é possível perceber que asiáticos tomaram apreço pela costa leste e centro.

No gráfico é possível acompanhar a evolução desses movimentos por intermédio de uma barra de navegação por ano assim como é possível partir para o detalhe e perceber onde esta a maior ocupação por categoria (México no exemplo abaixo).

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Nesse momento o mapa se transforma em um bubble chart para dar a dimensão da ocupação de cada pais em cada região (uma forma eficiente de fornecer uma primeira leitura).

Buble charts são ótimos para um overview mas não são completamente eficientes. Nosso cérebro não lida bem com volume. E as áreas dos círculos representam isso, volume. Não estamos falando de raio. São coisas bem diferentes. Para tirar a prova, vamos comparar as três regiões aparentemente mais populadas por mexicanos em gráficos de bolha e linhas. Perceba como as barras são muito mais compreensíveis. O bubble chart coloca Cook Conty e Harris Conty com, aparentemente, metade da população de mexicanos de Los Angeles quando, na verdade, como mostra o gráfico de barras, Los Angeles tem quase 3 vezes mais.

Bubble chart Sabemos que é extremamente tentador, logo no primeiro briefing, sentar a frente do computador, desenhar um gráfico lindo e ir em frente com ele por pura questão (e gosto) estética. Mais uma vez, ao longo do processo, provavelmente você vai se deparar com limitações dessa escolha prematura.

A mesma situação ocorre com o conteúdo do infográfico. Em muitos casos deparei-me com pautas que pareciam proporcionar uma boa ideia de info mas, ao longo do caminho, tivemos de desistir delas ao concluir que, por inúmeras razoes, uma simples matéria escrita resolveria a questão. Dentre essas razoes tínhamos coisas como a falta de dados consistentes, buracos nos dados ou mesmo dados absolutos que não deixavam margem para um interpretação e apresentação rica e esclarecedora.

Portanto, a dica mais clichê e mais importante de todas é: rascunhe no papel. Estude sua pauta e seus dados de todos os ângulos possíveis, imagine todas as situações e, só depois de chegar a uma conclusão e um consenso, parta para seu querido mouse e teclado. Isso impede o retrabalho ou mesmo ter de voltar atrás em um ponto já avançado para começar do zero novamente em função de um resultado ruim fruto de uma primeira escolha prematura.

Uma solução bem pensada e estudada antes no papel, provavelmente, vai gerar uma visualização interessante e realmente esclarecedora.

Lições do dia:

1 – Infografia e visualização de dados são parte de uma mesma área do conhecimento
2 – Função e ideia devem guiar a forma e a execução. Design, tecnologia ou mesmo corte editorial nem sempre são o melhor ponto de partida. Escolha o que melhor atende sua pauta/projeto e conte sua história da melhor forma possível
3 – Infográfico não é enfeite
4 – Infográfico não é matéria bonita
5 – Infográfico não se adapta a qualquer pauta
6 – Mapas são legais e interessantes. Mas nem sempre a localização é um dado relevante (a não ser que você esteja perdido).
7 – Use papel e lápis. Sempre. O computador e suas maravilhas tecnológicas são ótimos mas partir para a maquina sem uma ideia coerente e bem estudada na cabeça é ter retrabalho mais tarde. Ele é só uma ferramenta.

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