Repertório e percepção visual

A influência da ciência cognitiva na Infografia e visualização de dados

Repertório e percepção visual

Infografia e visualização de dados, apesar do boom atual, possuem, há muito tempo, uma vasta sintaxe e uma sólida aliada na construção de narrativas visuais: a percepção a significados e estímulos sensoriais abordados pela ciência cognitiva.

Digamos que você pretende pendurar aquele quadro bacana, trazido de sua última viagem, na pálida parede de sua sala. Uma das primeiras coisas que vem a sua cabeça é justamente quais ferramentas você vai precisar. Naturalmente, qualquer indivíduo minimamente dotado de intelecto vai fazer exatamente a mesma lista: prego ou parafuso, bucha, furadeira ou martelo e uma chave de fenda (ou Phillips, dependendo do parafuso).

Isso se explica, naturalmente, pelo fato de que ao longo do tempo e da experiência humana, todos nós, hoje, sabemos exatamente o que é necessário para fixar um quadro na parede.

Eis que com a infografia e a visualização de dados acontece a mesma coisa. Nossa vivência e bagagem nos ensinou algumas regras e nos forneceu ferramentas para as ocasiões em que pretendemos representar algo visualmente. São princípios aprendidos ou intrínsecos a maneira como nosso cérebro funciona. Valer-se destas regras e princípios é fundamental se queremos nos fazer entender da melhor forma possível assim como, conhecer as mesmas regras e princípios é necessário para que possamos desconstruí-las encontrando novas formas de expressão visual. Trata-se do velho mas verdadeiro clichê: para desconstruir é preciso saber construir.

Uma alusão brilhante em relação a isso, vem de Alberto Cairo que costuma afirmar que a infografia é um martelo. Martelo no sentido de ser uma poderosa ferramenta que aumenta nossa capacidade de compreensão e percepção, assim como o martelo amplia nossa forca.

Percepção visual

Entender como nosso cérebro recebe estímulos e os interpreta é crucial para nos fazermos compreender de forma clara e eficaz. Estudos da percepção humana e a ciência cognitiva vem de longa data e uma das escolas mais importantes nesse sentido é a Gestalt, surgida no início do século XX. A percepção visual nos fornece o alicerce de como nossos olhos e cérebro trabalham em conjunto, muitas vezes de forma automática, formando padrões, relações e correlações. Um bom exemplo dos princípios da Gestalt esta ilustrado abaixo: similaridade e proximidade.

A similaridade nos mostra como nosso cérebro tende a agrupar formas de uma mesma cor (ou formas semelhantes). Já a proximidade tende a agrupar formas justamente pela sua proximidade espacial. Quem esta próximo, automaticamente forma um grupo.

Gestalt

Basicamente tais princípios, entre tantos outros, nos mostram que não precisamos de um processo de interpretação para que a percepção aconteça. Nossa reação é automática. Posto isso, vemos a importância do conhecimento da ciência cognitiva para usar tais princípios a nosso favor sempre que trabalharmos em qualquer tipo de visualização.
História

Além dos estudos cognitivos, muitos dos gráficos que vemos sendo comumente utilizados hoje em dia foram criados, testados e estabelecidos ao longo do tempo, tendo sua eficiência na comunicação visual comprovados por todos estes anos. Valer-se de fórmulas já estabelecidas também pode ser uma pratica efetiva para facilitar a compreensão do que queremos demonstrar.

Em 1781, William Playfair, no livro The Commercial and Political Atlas, criou e fundamentou as bases de alguns gráficos que conhecemos muito bem atualmente. Entre eles o gráfico de linhas e o gráfico de barras. Em 1801 deu a luz ao polêmico gráfico de pizza (Hoje, tendo como base os estudos da percepção visual, sabemos que nosso cérebro não tem uma boa capacidade em comparar volumes).

No livro The Functional Art de Alberto Cairo, temos um capítulo inteiro dedicado a história do engenheiro escocês entre outros precursores e pais da representação de dados. Vale a leitura.

O gráfico de linhas criado por Playfair mostrando a balança comercial de importações e exportações

O gráfico de linhas criado por Playfair mostrando a balança comercial de importações e exportações

O gráfico de barras de Playfair no livro The Commercial and Political Atlas

O gráfico de barras de Playfair no livro The Commercial and Political Atlas

Em 1858, Florence Nightingale, trabalhando como enfermeira na guerra da Crimeia, criou o gráfico de crista de galo. Uma especie de combinação de gráfico de pizza e gráfico de barras onde as fatias são sempre do mesmo tamanho e o que indica a dimensão do dado é a área de cada fatia tomando como referencia seu raio.

O gráfico de Florence pretendia demonstrar as causas de mortalidade dos soldados. As áreas azuis mostram as mortes por infecção nos hospitais; as vermelhas, morte pelos ferimentos de guerra propriamente ditos e já as pretas, outras causas. Portanto, Florence pretendia com o gráfico alertar para as mas condições dos hospitais já que vê-se claramente que as infecções matavam muito mais do que qualquer outra coisa.

O gráfico de Florence pretendia demonstrar as causas de mortalidade dos soldados. As áreas azuis mostram as mortes por infecção nos hospitais; as vermelhas, morte pelos ferimentos de guerra propriamente ditos e já as pretas, outras causas. Portanto, Florence pretendia com o gráfico alertar para as mas condições dos hospitais já que vê-se claramente que as infecções matavam muito mais do que qualquer outra coisa.

Em 1931, o designer gráfico Harry Beck desenhou o icônico mapa do metro de Londres e estabeleceu praticamente uma nova sintaxe visual no que diz respeito a representar sistemas de transporte sobre trilhos. Antes de Beck o mapa era literalmente geográfico mostrando exatamente como era o sistema abaixo da geografia de Londres. Beck percebeu que a informação geográfica literal não era realmente importante e entendeu que o crucial era fornecer aos usuários do metro a ordem e relação das estacoes entre si. A inspiração veio de diagramas de engenharia elétrica.

O mapa atual do metro londrino, carinhosamente chamado de tube

O mapa atual do metro londrino, carinhosamente chamado de tube

A esquerda o mapa antes de Beck e a direita a versão de Beck de 1933

A esquerda o mapa antes de Beck e a direita a versão de Beck de 1933

Conclusão

No lugar de quebrar a cabeça procurando alguma solução inédita e incrível para representarmos nossos dados, podemos sempre recorrer a historia e encontrarmos um rico vocabulário já formado e perfeitamente conhecido do grande publico facilitando assim nosso trabalho e o trabalho do leitor.

É claro que muitas vezes você vai se deparar com visualizações bastante complexas de se representar e isso vai exigir uma abordagem nova na qual você pode recorrer a toda a sintaxe já existente para trabalhar com mais segurança e, quem sabe, não criar algum novo tipo de representação ; )

Lição numero 3

  • Entenda e explore a ciência da percepção visual e utilize-a a seu favor. O cérebro de seu leitor agradece já que vai trabalhar menos (no bom sentido)
  • Conheça o rico repertorio gráfico que temos a nosso dispor hoje em dia e inspire-se nas historias de quem criou os padrões que conhecemos hoje
  • Se quiser criar algo novo, estude o passado e olhe para o futuro.
  • Pizza, se quiser ser claro (e feliz), só no prato.

Abraço e ate à próxima!

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