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Making of – Como funciona a bateria da Grande Rio

Conheça o processo de criação de um infográfico do início ao fim e entenda a importância da edição na medida certa para entregar uma peça enxuta, interessante, informativa e até mesmo lúdica para o leitor.

No começo de 2011, em meio a uma enxurrada de pautas sobre o Carnaval vindouro e um trabalho frenético (geralmente envolvendo mulheres seminuas), Jackson Bezerra, na época comandando a sucursal carioca do Internet Group, irrompe ao telefone com uma pauta matadora:  “Vamos mostrar como funciona uma bateria de escola de samba!  Tenho tudo arranjado! A Grande Rio topou a ideia.”

Jackson, com toda ginga e malandragem (no bom sentido!) de um paranaense de alma carioca, conseguiu convencer alguém a colocar dentro de um estúdio de gravação uma bateria de escola de samba. Posto isso, a parte mais improvável estava acertada e agendada.

Nosso convidado de honra e nosso guia para entendermos a dimensão e a dinâmica de uma bateria de escola de samba era mestre Ciça, renomado ritmista com um histórico invejável de passagens por Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Viradouro e, finalmente, diretor da bateria da Grande Rio onde inovou em 2010 com a “paradinha” mais longa da qual se tem notícia.

Embarcamos para a cidade maravilhosa sem saber muito bem o que iríamos encontrar. A orientação era descobrir tudo sobre a alma de uma escola de samba.

E lá fomos eu e Master San, engenheiro de som do iG, com a missão de, em um único dia, delinearmos exatamente a pauta, gravarmos e voltarmos para São Paulo com todo o máximo de material possível em mãos. Não é preciso dizer que mal vimos a luz do sol naquele dia.

Em uma conversa rápida traçamos um plano de ação: durante a manhã, Master San e Mário Sérgio Bruno (engenheiro de gravação do estúdio Cia. dos Técnicos) ajustariam todos os equipamentos e preparariam os ritmistas para a gravação. Enquanto isso, em uma outra sala, sentei-me com mestre Ciça para uma longa conversa recheada de boas risadas e um sem número de curiosidades sobre o funcionamento uma bateria de escola de samba.

Vale dizer que o Cia. dos Técnicos fez história no carnaval carioca gravando muitos dos sambas enredos que você já ouviu por aí.

Durante uma manhã inteira, descobri o inimaginável sobre a bateria da Grande Rio. Era muita, mas muita informação: quantas alas, quantos ritmistas em cada ala, o que era microfonado, como era microfonado, quantos diretores e a função de cada um, tudo, absolutamente tudo. Em um bloco de papel A3 (desculpem-me os modernos, prefiro papel e lápis) estava tudo anotado e rabiscado. O mapa da bateria e como tudo acontecia. Inclusive mestre Ciça fez questão de desenhar muitas coisas de próprio punho.

O mapa literal da bateria da Grande Rio

O mapa literal da bateria da Grande Rio (Gabriel Silveira)

Foi uma enxurrada de informação. Havia material para uns dez infográficos sobre o tema. Mas a tarefa era produzir apenas um.

Na parte da tarde, todos em silêncio e hora de registrar a festa. É importante ressaltar que seria impossível colocar a bateria inteira dentro da sala de gravação. Com isso gravamos cada instrumento separadamente na velha fórmula que quem já passou por um estúdio conhece: primeiramente é feita uma gravação “suja” com todos juntos, para servir de base e depois essa base guia a gravação em separado de cada instrumento, um por vez. Porém, no nosso caso, foi utilizada como guia a gravação final do samba enredo que, na ocasião, estava pronta e tinhamos a nossa disposição como uma espécie de “segredo de estado”. É um processo longo, repetitivo e enfadonho.

Nesse momento foi crucial a decisão da equipe em gravar o samba enredo do início ao fim. A ideia primeira era utilizarmos apenas um trecho em uma espécie de loop. Graças aos céus e a experiência dos engenheiros de som, voltamos para São Paulo com o samba enredo inteiro, com todos os instrumentos separados.

Após a gravação, ainda houve tempo hábil de produzir um pequeno vídeo de cada instrumento e entrevistarmos mestre Ciça para que contasse mais alguns segredos e artimanhas do ofício.

Em uma passagem relâmpago pelo Rio, no dia seguinte estávamos de volta a redação com tudo em mãos. Por incrível que pareça, a parte mais trabalhosa e que provavelmente tomaria mais tempo, a pré-produção, foi realizada em apenas um dia, orquestrada (perdão pelo trocadilho) como um relógio.

Reunimos toda a equipe para decifrarmos qual seria a melhor forma de contarmos aquela história. Com tanto material, a pauta estava se transformando em um monstro. Teríamos um infográfico com milhões de janelas, botões e informações. Eis que em um ataque de lucidez e tato para edição decidimos apostar em uma peça mais enxuta e (odeio essa palavra, mas não encontro outra) lúdica. (ok, eu já utilizei a palavra lá em cima…)

A idéia seria “resumir” o desenho da bateria, representando todas suas seções (sem ser literal e numérico) e deixar o leitor interagir e descobrir o que cada uma delas toca. Eliminamos diretores, detalhamento e tudo o mais.

O mapa simplificado da bateria da Grande Rio, ainda com os diretores demarcados (Grabriel Silveira)

O mapa simplificado da bateria da Grande Rio, ainda com os diretores demarcados (Grabriel Silveira)

Mas como mostrar isso?

Claro que iniciamos com viagens malucas no sentido de mostrar tudo animado com os ritmistas vistos de cima, se movendo e tocando seus respectivos instrumentos. Bom… ficou… carnavalesco.

Esboço inicial de como seriam os ritmistas vistos de cima (Gabriel Silveira)

Esboço inicial de como seriam os ritmistas vistos de cima (Gabriel Silveira)

Nesse ponto percebemos que teríamos um trabalho hercúleo e provavelmente o leitor teria um ataque epilético vendo, literalmente, aquele carnaval na sua frente.

Prova de que os leitores teriam uma baita dor de cabeça (Gabriel Silveira)

Prova de que os leitores teriam uma baita dor de cabeça (Gabriel Silveira)

Eis que Gabriel Silveira, ilustrador de mão cheia, teve a brilhante ideia de transformar as seções da bateria em um desenho de um equalizador gráfico. Nada mais apropriado! Prontamente abandonamos as primeiras loucuras e compramos a incrível solução. Mas sempre tem um historinha triste pra contar. Nosso diretor de jornalismo, Luciano Suassuna, deu uma olhada no layout das barras gráficas representando os instrumentos e deu pra ver claramente em seu rosto um único sentimento:  decepção. Claro, ver aquele layout ali, ainda parado, de um monte de palitinhos coloridos, não era algo que empolgaria muito qualquer pessoa.

A solução ideal - barras de um equalizador gráfico

A solução ideal – barras de um equalizador gráfico

A forma final desenhada em vetor

A forma final desenhada em vetor

Mas fomos em frente. Iriamos convence-lo do contrário. Com bons argumentos, claro.

Porem, nos deparamos com o próximo problema da lista: o tamanho dos arquivos. Imagine 7 instrumentos diferentes em 7 faixas separadas de áudio com duração de mais ou menos 3 minutos. É coisa pra caramba. O primeiro pensamento que nos veio a cabeça foi: isso tudo vai levar uma eternidade para carregar.

Assim partimos para uma solução aparentemente logica (mas completamente sem alma) –  no lugar de utilizarmos o samba enredo inteiro, utilizaríamos apenas um trecho. Will Costa, programador exímio que fez toda a mágica acontecer, reuniu todos para a grande prova de fogo. Ao apertar do play todos ficaram com a mesma cara de nosso diretor de jornalismo ao ver as barras coloridas inertes: decepcionados. O loop ficava xoxo, não tinha graça nenhuma.

desenho-final

A arte final (ainda com os diretores de bateria em azul claro que mais tarde foram eliminados)

Mas… compramos mais uma vez a briga. Ao inferno, vamos utilizar a música inteira. Pressupomos que as pessoas iriam esperar o longo carregamento. E deu certo.

Assim que lançamos a peça, foi sucesso instantâneo. Todos compartilhando nas redes sociais, gente na televisão falando sobre a peça como exemplo de uso das “novas mídias” (seja lá o que isso signifique) e um enorme sucesso de crítica e público.

Infográfico Bateria da Grande Rio

A versão publicada (clique na imagem para acessar)

Me lembro claramente de ver na TV a referência a peça que estava em “um site da internet”. Sai correndo pedindo pelo amor de Deus que alguém fizesse algum redirecionamento de umsitedainternet.com.br para o site do iG. Ok, foi uma piada besta, mas é fato.

Enfim, você pode conferir o resutado final clicando aqui. É só soltar o mestre de bateria que existe em você.

Para completar nosso orgulho e alegria, acabamos levando medalha de prata com o trabalho na vigésima edição do prêmio Malofiej na Espanha em 2012.

Depois dessa longa história a lição que fica é justamente o quão importante é uma edição assertiva e bem cuidada. Nem sempre o caminho ideal é trabalhar uma peça super complexa e recheada de informações. Muitas vezes o básico chama muito mais a atenção e esclarece muito mais. O velho chavão “menos é mais”  algumas vezes se prova verdadeiro.

Abraço e até a próxima!

(Publicado originalmente na coluna Aprenda do Visual Loop Brasil)

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O básico é importante

Seguir regras simples é o primeiro passo para apresentar gráficos de forma clara e eficiente

Antes de aventurar-se por aí reproduzindo gráficos complexos (não que isso não seja altamente desejável), customizados ou mesmo apostando em criações originais é sempre bom fazer um pequeno exercício e voltar a atenção as regras de construção que regem gráficos mais básicos e comuns para entender como eles funcionam e para que situações são mais adequados. Uma vez compreendidas tais regras será muito mais fácil trabalhar em projetos mais complexos com seguranca e propriedade.

Abaixo reproduzo, não literalmente, mas a junto a meus comentários e considerações, parte de um livro bem bacana que trata justamente dos gráficos mais conhecidos. É o The Wall Street Journal Guide to Information Graphics de Dona M. Wong. É um livro simples, fácil de ler e bastante completo no que se propõe a ser: um guia rápido de referência para as situações mais comuns. Durante o período em que trabalhei como editor de infografia no Internet Group o consultava constantemente e sempre, sempre encontrava alguma solução por lá quando me deparava com alguma dúvida. Vale a pena ter na biblioteca.

Comecemos com os três elementos essenciais para um bom gráfico:

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

Conteúdo: acredito que essa é a parte mais importante. Do que trata o seu gráfico e a riqueza desse conteúdo. O gráfico pode ser algo lindo (esteticamente falando) e super bem executado mas se o assunto não despertar o mínimo de interesse em qualquer tipo de audiência (ou na audiência pretendida), estará fadado ao esquecimento. É por isso que você sempre deve ter em mente sua audiência, a quem esse gráfico será apresentado. É de interesse global? De interesse de algum grupo específico? Pense nisso já que o primeiro passo para acertar é falar sobre o assunto certo para as pessoas certas.

Visual: aqui a tarefa é valer-se da melhor forma para interpretar e clarificar o conteúdo destacando a essência da informação ao leitor.

Execução: é o que da vida ao gráfico, a maneira como você vai elabora-lo, para mostrar pontualmente o que deseja mostrar.

Posto isso, os passos essencias para atender estes três elementos são:

Pesquisa utilizando fontes de informação confiáveis e independentes. Também não esqueça de pedir autorização para o uso dos dados caso seja necessário.

Edição identificando sua mensagem principal e filtrando seus dados para entregar a essência de sua história a contar

Cenário: escolha o tipo correto de gráfico para apresentar seus dados. Se a ideia é mostrar uma tendência ao longo do tempo, por exemplo, nada melhor que nosso velho (e eficiente) gráfico de linhas. Utilize-se de recursos como tipografia, cores, anotações, títulos e legendas para destacar a informação mais importante.

Checagem: confira seu gráfico de acordo com os dados que conseguiu. Sempre olhe para sua criação do ponto de vista do leitor. Esta tudo claro para um leigo? Algo ficou confuso ou difícil de entender? Também Procure por pontos fora da curva ou algo que parece não fazer sentido e verifique se pode ser um erro ou realmente uma situação fora do comum.

Crie a comparação correta

Essa questão é extremamente importante. Muitas vezes, apresentar seus dados sem nenhuma correlação pode demonstrar uma inverdade ou contar uma história incompleta. Dados absolutos nem sempre contam a história da maneira correta.

Um exemplo:

A renda familiar em três famílas diferentes (vamos considerar que todos os membros da família trabalham e tem a mesma renda)

Tabela

Perceba no gráfico abaixo que, apresentar apenas a renda como fator principal coloca a família C como a mais rica. Porém, se considerarmos o número de pessoas por família entendemos que a família B tem uma vida financeira mais confortável pois, individualmente, ganham mais que C e A.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

A partir deste exemplo entende-se que a mensagem do gráfico deve ser consistente com todos os fatos e evidências disponíveis.
É necessário sempre que possível colocar os números em um contexto. Mostrar percentuais, por exemplo, fora de um contexto, não faz o mínimo sentido. Contratar 200 pessoas pode representar 1% da força de trabalho em uma empresa ou 10% em outra.

Dicas e regras para gráficos simples

 

Gráfico de barras

As barras medem variáveis discretas, valores finitos e numeráveis.

Barras muito estreitas

Quando as barras são muito estreitas, o foco acaba caindo no espaco negativo do gráfico que não contem dado algum. A largura da barra deve ter aproximadamente duas vezes a largura do espaço entre elas.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Sombreamentos ou cores desnecessárias

Em situações em que as barras medem uma mesma variável, sombreamentos ou cores diferentes não fazem sentido pois só distraem e atrapalham a comparação. Mesma variável, mesmo tratamento gráfico.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Barras tridimensionais

O uso do 3D confunde a leitura pois não fica claro onde está o topo da barra

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Projeções e estimativas

Sempre que trabalhar com projeções, deixe isso claro tanto nas suas legendas como em um tratamento de cor diferenciado. Utilizar uma cor mais clara é uma boa saída.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Valores negativos

Um fundo distinto pode ser utilizado para identificar a zona negativa do gráfico.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Comece do zero

Toda comparação deve partir do zero. Colocar a base do gráfico em um valor diferente de zero leva a uma intepretação equivocada.

Exemplo:

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

No exemplo acima, o valor de 2007 parece ser 5 vezes maior que o de 2004 quando, na realidade é apenas 25% maior. A função do gráfico de entregar facilmente a informação perdeu-se completamente.

Base

Sempre destaque a linha de base em relação as outras linhas do gráfico. Quando um valor estiver muito próximo da base, mostre-o próximo a barra.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Legenda

Se suas legendas forem muito extensas, não caia na armadilha de inclinar os textos ou, na cenário mais dantesco possível, coloca-las na vertical. No lugar de fazer do mundo um lugar pior onde as pessoas vão precisar inclinar a cabeça para conseguir ler, utiliza barras horizontais.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Deu zebra

Alternar barras em cores escuras e claras provavelmente vai fazer seu leitor sofrer uma baita dor de cabeça além de tornar a tarefa de comparação quase impossível. Veja por si mesmo no exemplo abaixo e segure-se para para o caso de sofrer tontura.

No lugar disso, ordene as cores da mais clara a mais escura para fácil comparação

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Legende na ordem correta

Se não for possível colocar suas legendas logo abaixo das barras, procure legendar suas barras sempre na ordem em que elas aparecem no gráfico. Além disso, as legendas são a chave para a informação, coloque-as em um lugar de destaque e de fácil visualização. Também tente manter a comparação em barras múltiplas em até quatro categorias. Um número acima disso será de difícil leitura. (O exemplo abaixo tem 3 categorias)

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Pontos fora da curva

Utilizando o recurso de interromper uma barra

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Interromper uma barra informativa no gráfico é um recurso utilizado para plotar um ponto fora da curva mas, antes de fazer isso, confirme:

  • que seus dados realmente demonstram esse ponto
  • que existam ao menos dez barras e apenas uma fora da curva
  • que o ponto fora da curva é, no mínimo, três vezes maior que o segundo maior valor nas barras
  • que o ponto fora da curva não é o ponto chave da história. Se for, não deve ser interrompido

OBS: sempre legende o ponto fora da curva já que o gráfico não acompanhará esta barra.

Não interrompa uma barra se sua série de dados for muito pequena pois, dada a quantidade, é impossivel saber de fato qual é o ponto fora da curva

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Não interrompa uma barra se o seu valor for apenas duas vezes maior que o segundo maior valor da série. No lugar disso, ajuste a escala de todo o gráfico para comportar a barra maior juntamente com as outras.

Um dos gráficos do The Wall Street Journal Guide to Information Graphics, de Dona M. Wong

(imagem: The Wall Street Journal Guide to Information Graphics | Dona M. Wong)

Como você pode perceber, as lições são bastante simples mas muito, muito úteis, principalmente quando você se depara pela primeira vez com algum problema que não havia enfrentado ainda. Além de gráficos de barra, muitos outros gráficos são dissecados no livro além de dicas de tipologia, cores e outras coisas mais.
Recomendo fortemente ter na sua coleção. Agora vamos pra nossa revisão : )

Lição número 4

  • Entenda sua audiência e seu tema. Conecte-os da melhor forma possível
  • Sempre que puder correlacione dados
  • Estude as regras dos gráficos mais simples e valha-se delas para gráficos mais complexos. Eu garanto, isso vai ajudá-lo.
  • Incline os textos apenas quando a evolução da espécie humana deixar uma das pernas mais curta que a outra.

Até a próxima!

Números absolutos nem sempre são uma verdade absoluta

Dia desses deparei-me com a noticia de que no ano de 2012, aproximadamente 1 milhão de celulares foram roubados no Brasil.
Vi a noticia assim, irresponsável, solta no tempo e espaço. Mas o que devemos perguntar é: esse numero é bom ou ruim? Não sabemos. E mesmo que apresentássemos um gráfico de barras com o numero de celulares roubados em um período de, digamos, 10 anos, a resposta ainda não estaria clara.

Números absolutos contam meia história. O que precisamos saber é se o numero de celulares no Brasil também aumentou no período.
Vamos trabalhar com um exemplo hipotético e simples.

  • Em 2011: 10 celulares foram roubados no Brasil
  • Em 2012, 15 celulares foram roubados no Brasil

Em números absolutos, 2012 foi um ano terrível. Tivemos um aumento de roubos de 50%. Escondam seus celulares!

Mas qual o numero de aparelhos celulares no pais nesses dois períodos? Mais uma vez, hipoteticamente:

  • Em 2011 tínhamos 100 celulares no pais
  • Em 2012 tínhamos 160 celulares no pais

Agora vamos converter isso em percentuais (correlacionando dados, eis a questão).

  • Em 2011 tivemos 10% dos celulares roubados
  • Em 2012: 9,37%.

Ou seja, o numero de roubos, mesmo que com uma diferença pequena em relação ao ano anterior, caiu.

Os números absolutos colocam o ano de 2012 como um holocausto da telefonia celular. Mas quando contextualizamos no tempo e correlacionamos com outros números igualmente importantes, percebemos que os números absolutos nem sempre contam a história completa.

Outro exemplo a ser estudado. As mortes dos ciclistas no transito.

Também não vou entrar aqui no mérito da questão das bikes, da vida sustentável e do caos das cidades motorizadas e blá, blá, blá. Eu acredito, basicamente, em números.

O que tem se falado muito diz respeito aos acidentes envolvendo bicicletas. Legal. Os números absolutos podem ser significativos. Mas e se colocarmos isso em perspectiva?

Numa pesquisada rápida descobri:

  • as mortes de motociclistas explodiram nos últimos anos
  • as mortes de pedestres são os números mais constantes (não baixaram significativamente)
  • as mortes de ciclistas tiveram um aumento pouco significativo.

Nesse caso, seria interessante conseguir os dados relativos as vendas de bicicletas, motocicletas e automóveis para podermos fazer uma relação entre o numero de mortes e o numero desses veículos nas ruas. Tentei conseguir os dados em um gentil e-mail enviado a Abraciclo mas não obtive resposta e, portanto, não puder tirar conclusões.
O que se conclui é: apresentar números absolutos sem nenhum tipo de contextualização ou correlação coerente pode demonstrar uma inverdade. Uma ideia equivocada da realidade.

Posto isso, a lição de hoje é: números absolutos são como crianças. Desacompanhados podem gerar uma baita confusão.

Um abraço e até a próxima.

Infografia e dataviz – diferenças, cuidados e dicas para quem quer se aventurar

Uma dúvida recorrente que passa pela cabeça de muitas pessoas que ingressam na área de infografia e visualização de dados diz respeito ao que seria exatamente a diferença entre ambas. Tentar esclarecer essa questão antes de qualquer coisa é um bom ponto de partida.

Algumas das definições mais claras e consistentes a respeito , pude encontrar no livro The Functional Art de Alberto Cairo e, complementarmente, em um post de Robert Kosara no eagereyes.org.

Observando os argumentos de Cairo e Kosara conclui-se que alguns afirmam que ambas são diferentes partindo do principio de que a infografia consiste em apresentar informação por meio de gráficos estatísticos, mapas e diagramas e a visualização utiliza como premissa a criação de ferramentas visuais que possibilitam uma exploração em diferentes níveis dos dados ou fatos que se pretende apresentar.

Segundo Cairo, ambas pertencem a um mesmo grupo mas estão em lados opostos de uma mesma linha onde o que distancia uma da outra é justamente a questão de apresentar os dados ou apresentá-los de forma que possam ser explorados em uma navegação interativa (na internet) ou ordem de leitura estática (no impresso).

Kosara aprofunda-se na definição de visualização recorrendo a alguns pré-requisitos:

  • Uma visualização baseia-se em dados não visuais. Parte-se de dados abstratos ou não exatamente visíveis e apresenta-se o resultado de forma gráfica.
  •  O resultado necessariamente produz uma imagem. Óbvio porem importante. Se a imagem é uma pequena parte do resultado não estamos falando de uma visualização.
  • O resultado deve ser compreensível. A visualização deve fornecer meios para que se entenda e aprenda algo com os dados apresentados.

Posto isso partimos do princípio que visualização e infografia tratam sim de uma mesma área do conhecimento.

A infografia, geralmente, tem uma característica “enciclopédica” no sentido de que pode explicar algo mais claramente de uma maneira primordialmente visual. No lugar de escrever a respeito, mostra-se algo.

O que se enquadra bem nestas características são, por exemplo, explicações e diagramas de como funciona uma máquina ou como acontece um processo. Basicamente a infografia conta uma história com início meio e fim e, muitas vezes, apresenta uma “moral da história”, uma conclusão a qual deseja-se que o leitor/observador perceba.

Aliás, uma infografia geralmente tem um corte editorial para contar um história ou apresentar um fato. Geralmente, foca-se em uma parte (a essência) de uma história maior. Um bom exemplo de uma boa história que todos queriam contar? O resgate dos mineiros chilenos em 2010 na mina San José. Naquele momento seria possível contar uma história extensa mas o que a maioria das pessoas queria entender era como seria o processo de retirar 33 pessoas soterradas a quase 700 metros de profundidade com uma capsula (Fênix 2 ) projetada pela Nasa. Nesse momento entra uma parte muito importante no que diz respeito a infografia e visualização: a edição.

Uma curiosidade: antes do famoso bilhete com a inscrição “Estamos bien en el refugio, los 33″ vir a superfície, uma broca foi pintada de vermelho pelos mineiros soterrados. Só assim descobriu-se que existiam pessoas vivas la embaixo.

O resgate dos mineiros do Chile (2010) | iG

O resgate dos mineiros do Chile (2010) – iG – Clique na imagem para acessar

Muitas vezes é fácil perder-se em meio a tanta informação e querer mostrar tudo o que é possível em um gráfico. Mas é preciso coerência e bom senso editorial para produzir uma peça enxuta e ao mesmo tempo, completa no sentido de mostrar o que é importante naquele momento.

Existe um fio condutor e uma conclusão a respeito que se revela aos olhos do leitor/observador. Isso não quer dizer que não possamos ver por aí uma infografia que trabalhe também com dados e números com a intenção de explicar algo de uma forma mais visual. Você pode, por exemplo, explicar como funciona o motor de um avião ou como se troca uma lâmpada. Um manual de montagem de um móvel é um bom exemplo do que seria uma infografia nesse sentido.

Já a visualização, basicamente, trabalha com informação abstrata, dados, números, estatísticas e trata isso de uma forma visual para que se torne compreensível. Se estiver em um meio interativo, pode possibilitar vários níveis de exploração, comparação e correlação de dados para que o leitor/observador possa, além de ter uma primeira conclusão acerca do assunto, descobrir novas histórias e tecer suas próprias conclusões a respeito.
Um exemplo de infografia na sua definição mais clara pode ser visto em um dos infográficos que o iG produziu em 2011: As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça. (A Esquadrilha da Fumaça é o esquadrão de demonstração da Força Aérea Brasileira).

As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça - iG - 2011

As principais manobras da Esquadrilha da Fumaça – iG – 2011 – Clique na imagem para acessar

A intenção neste caso era explicar visualmente como eram realizadas as principais manobras do grupo. Algo totalmente visual. Ou seja, nos valemos de recursos gráficos (e interativos) para reproduzir as manobras na tela do computador e para também fornecer algumas informações básicas sobre o esquadrão. Imagine tentar explicar isso tudo em apenas palavras. Tarefa difícil não? Perceba que não existem exatamente “dados” mas sim um processo, um acontecimento passível de ser melhor traduzido em imagens. O infográfico foi premiado com medalha de ouro na vigésima edição do Prêmio Malofiej (o maior prêmio de infografia do mundo) em 2012 dividindo o palco com gigantes como NY Times e National Geographic. Um dos maiores orgulhos da equipe.

No exemplo abaixo, podemos ver um caso claro de visualização de dados. Um gráfico que mostra o movimento dos táxis na cidade de Nova York. Um mapa de calor mostra, ao longo das horas do dia e dias da semana quais são os pontos da cidade onde acontecem mais ou menos corridas. Todos esses dados foram coletados e, provavelmente, plotados em uma tabela. Imagine a dificuldade de interpretar essa tabela? É uma informação muito abstrata mas, quando plotada sobre o mapa, mostra claramente quando e onde é mais fácil ou difícil conseguir um táxi na cidade .

Tracking Taxi Flow Across the City – New York Times – 2009

Tracking Taxi Flow Across the City – New York Times – 2009 – Clique na imagem para acessar

Agora que conseguimos esclarecer um pouco do que se trata cada vertente de uma mesma ciência vamos partir para algumas dicas sobre como produzir uma boa infografia ou visualização.

Que história você quer contar e qual a melhor forma de contá-la?

Um dos grandes equívocos que percebo hoje em dia é pensar a infografia ou visualização como um recurso ou meramente estético, ou meramente tecnológico ou meramente editorial. Trata-se, de fato, de um pouco dos três. Mas o que vai definir qual o melhor viés, ou viés predominante, é qual a melhor forma de apresentar os dados e fatos e o que se pretende contar.

Designers desavisados pensam em infografia como algo puramente estético, um recurso para deixar a matéria mais “bonita” e isso gera um monstro que costumo chamar de matéria ilustrada com números e figuras chamativas. Números gigantes, ilustrações coloridas e muito glitter para contar uma história rasa, sem nenhum tipo de conclusão ou comparação realmente útil.

Desenvolvedores muitas vezes pensam na infografia/visualização como uma questão tecnológica. Encantam-se com, por exemplo, uma biblioteca de java script ou qualquer outra coisa semelhante e acreditam que aquele recurso em especifico vai lhes proporcionar um resultado incrível nunca antes visto.

Jornalistas em muitas ocasiões pensam na infografia como uma maneira de tornar suas matérias mais chamativas visualmente e não como uma ferramenta para tornar a compreensão muito mais fácil. As vezes querem encaixar qualquer coisa dentro de um infográfico como, por exemplo, uma pauta denúncia com fotos reveladoras, vídeos incriminantes, áudios exclusivos e textos inflamados e analíticos. Porém, tudo isso reunido não passa de uma pagina de internet e não se trata de uma infografia.

Nos anos em que estive a frente da equipe de infografia do internet group (iG) tínhamos como mantra em nossa equipe a seguinte definição: não importa a forma (estética ), o que importa é de que maneira vamos mostrar. A equipe possuía ilustradores, jornalistas, designers e programadores e todo, absolutamente todo infográfico era discutido entre toda a equipe para entendermos se partíamos de uma tecnologia, um desenho ou um corte editorial específico. Cada tema pedia um tipo de abordagem. Alguns infos partiam da equipe de programação, outros dos designers e assim por diante.

Outra questão importante: discutir desde os primeiros esboços se a solução estava realmente clara para um não especialista. O melhor exercício que pode-se fazer nesse momento é esquecer que você é um especialista em design, infografia ou mesmo especialista no assunto em questão e colocar-se (SEMPRE) no lugar do leitor. Com isso você começa a se perguntar coisas que nunca se perguntou antes. Coisas como se aquela aba realmente parece uma aba, se o gráfico esta claro e legível, se os termos que você esta utilizando são conhecidos do grande publico e assim por diante.

A tentação de encontrar um recurso tecnológico que atenda razoavelmente o que você deseja fazer e decidir logo no principio em seguir em frente com este recurso, limita. Ao longo do caminho você vai se deparar com decisões de design as quais a tecnologia escolhida não permite e então o trabalho começa a ficar pobre pois muitas das soluções que poderiam ser incríveis ficam para trás por pura limitação técnica.

Um exemplo claro (e atual) de uso equivocado da tecnologia é o inexplicável fetiche por mapas. Google e tantos outros tem sua parcela de culpa por tornarem nossa vida tao fácil disponibilizando meios para que possamos colocar qualquer coisa em um mapa. Mas antes de colocar qualquer dado ou fato em um mapa é preciso se perguntar: A localização geográfica é realmente importante nesse caso em particular? Muitas vezes a resposta é não.

Vamos pegar como exemplo um projeto colaborativo e bem intencionado que surgiu em São Paulo em 2012. O projeto Fogo no barraco. Não vou entrar aqui no mérito da questão de que existe ou não uma mafia da industria imobiliária agindo de forma vil e desapropriando áreas pobres com incêndios criminosos para abrir espaço a grandes empreendimentos imobiliários. De qualquer forma, a ideia do projeto é mostrar algo perto disso. Sim, é nobre. Parabéns aos envolvidos. Mas a execução, em se tratando de visualização da dados, foi catastrófica.

Fogo no barraco – 2012

Fogo no barraco – 2012 – Clique na imagem para acessar

Ao abrirmos o gráfico não é possível visualizar absolutamente nada em um primeiro olhar. O que vemos são vários pontos de incêndio sobre o mapa de São Paulo em uma serie história pouco clara. E mesmo clicando e explorando as possibilidades do gráfico não é possível para uma pessoa entender, por exemplo, qual região teve maior valorização ao longo dos anos e se essa região, em função disso, sofreu um maior numero de incêndios no mesmo período. Não conseguimos identificar tendências.

É um gráfico que foi, aparentemente, guiado pela escolha da tecnologia (e pela urgência da denúncia ) que não esclarece quase nada mesmo ao observador mais atento. A localização geográfica exata dos incêndios é realmente importante para entender o todo? Uma serie de gráficos de linha (eles existem mas estão escondidos em um clique de mouse em cada ponto) não seria uma forma mais direta e clara de comparar regiões? Onde é possível encontrar a relação de incêndios e valorização das regiões de forma gráfica? Nesse caso, claramente, o mapa mais atrapalha do que ajuda. Observar o mapa não possibilita nenhum tipo de conclusão. Todas as perguntas que o gráfico poderia responder não podem ser respondidas de maneira fácil e rápida por meio da exploração do gráfico.

Agora um bom exemplo de uso de mapa: NY Times valeu-se dos dados de imigração de 1880 a 2000 para mostrar uma serie histórica da ocupação de imigrantes em seu território. Em uma primeira olhada já é completamente possível perceber quais grupos predominam em que regiões.

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Immigration explorer – 2009 – New York Times – Clique na imagem para acessar

A forma para mostrar esse primeiro retrato da imigração foi uma codificação por cores sobre cada região. Logo na primeira leitura, percebemos que em 2000 a costa oeste e o sul foram ocupados por imigrantes de países latino americanos, principalmente México, por sua proximidade geográfica.

Também é possível perceber que asiáticos tomaram apreço pela costa leste e centro.

No gráfico é possível acompanhar a evolução desses movimentos por intermédio de uma barra de navegação por ano assim como é possível partir para o detalhe e perceber onde esta a maior ocupação por categoria (México no exemplo abaixo).

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Immigration explorer – 2009 – New York Times

Nesse momento o mapa se transforma em um bubble chart para dar a dimensão da ocupação de cada pais em cada região (uma forma eficiente de fornecer uma primeira leitura).

Buble charts são ótimos para um overview mas não são completamente eficientes. Nosso cérebro não lida bem com volume. E as áreas dos círculos representam isso, volume. Não estamos falando de raio. São coisas bem diferentes. Para tirar a prova, vamos comparar as três regiões aparentemente mais populadas por mexicanos em gráficos de bolha e linhas. Perceba como as barras são muito mais compreensíveis. O bubble chart coloca Cook Conty e Harris Conty com, aparentemente, metade da população de mexicanos de Los Angeles quando, na verdade, como mostra o gráfico de barras, Los Angeles tem quase 3 vezes mais.

Bubble chart Sabemos que é extremamente tentador, logo no primeiro briefing, sentar a frente do computador, desenhar um gráfico lindo e ir em frente com ele por pura questão (e gosto) estética. Mais uma vez, ao longo do processo, provavelmente você vai se deparar com limitações dessa escolha prematura.

A mesma situação ocorre com o conteúdo do infográfico. Em muitos casos deparei-me com pautas que pareciam proporcionar uma boa ideia de info mas, ao longo do caminho, tivemos de desistir delas ao concluir que, por inúmeras razoes, uma simples matéria escrita resolveria a questão. Dentre essas razoes tínhamos coisas como a falta de dados consistentes, buracos nos dados ou mesmo dados absolutos que não deixavam margem para um interpretação e apresentação rica e esclarecedora.

Portanto, a dica mais clichê e mais importante de todas é: rascunhe no papel. Estude sua pauta e seus dados de todos os ângulos possíveis, imagine todas as situações e, só depois de chegar a uma conclusão e um consenso, parta para seu querido mouse e teclado. Isso impede o retrabalho ou mesmo ter de voltar atrás em um ponto já avançado para começar do zero novamente em função de um resultado ruim fruto de uma primeira escolha prematura.

Uma solução bem pensada e estudada antes no papel, provavelmente, vai gerar uma visualização interessante e realmente esclarecedora.

Lições do dia:

1 – Infografia e visualização de dados são parte de uma mesma área do conhecimento
2 – Função e ideia devem guiar a forma e a execução. Design, tecnologia ou mesmo corte editorial nem sempre são o melhor ponto de partida. Escolha o que melhor atende sua pauta/projeto e conte sua história da melhor forma possível
3 – Infográfico não é enfeite
4 – Infográfico não é matéria bonita
5 – Infográfico não se adapta a qualquer pauta
6 – Mapas são legais e interessantes. Mas nem sempre a localização é um dado relevante (a não ser que você esteja perdido).
7 – Use papel e lápis. Sempre. O computador e suas maravilhas tecnológicas são ótimos mas partir para a maquina sem uma ideia coerente e bem estudada na cabeça é ter retrabalho mais tarde. Ele é só uma ferramenta.

Aprenda a boa infografia

Arte e infografia

“O céu estrelado” de Van Gogh e uma representação da via láctea da Nasa.
Céus diferentes. Forma e função.

Estas primeiras linhas tentam explicar um pouco sobre a intenção e a motivação deste blog. É uma história relativamente curta sobre menos reação e mais ação. No final de 2012 fui surpreendido com um generoso convite para palestrar no INFOLIDE, evento super bacana sobre jornalismo, design e tudo o que a união destas duas distintas áreas pode produzir. A edição de 2012 tinha como foco a tão celebrada e discutida infografia.

Na ocasião pensei ter havido algum tipo de engano já que, nem de longe, me considero um profissional qualificado no que diz respeito ao tema. Minha atuação na área resume-se a 14 anos no meio do jornalismo online e poucos anos dedicados de fato ao estudo e a prática da infografia. De qualquer maneira, me senti lisonjeado e fui preparado para expor tudo o que vi e senti nos últimos anos trabalhando com o tema.

Tive o privilégio de topar com muitos amigos e colegas de profissão que são exímios conhecedores e disseminadores da boa infografia e, posto isso, não me arrisco a considerar-me como um arauto da verdade ou algum tipo de profundo conhecedor nessa área. Meus conhecimentos são de puro autodidatismo, curiosidade, fascinação e prática e, por isso, peço que todos que por aqui passarem façam o grande favor de debater, questionar e, acima de tudo, corrigir-me se eu estiver falando alguma bobagem. O campo de comentários lá embaixo foi criado, creio eu, justamente para esse propósito.

Voltando a minha pequena história, me recordo que, durante o Infolide, proferi vários impropérios sobre a explosão da infografia nos dias atuais. Uma frase que bem me recordo é “Acho que estamos sendo invadidos por um monte de infográficos de merda”. Eu sei, a frase é forte e provoca reação. Não foi uma maneira muito elegante de mostrar minha inquietação com a qualidade duvidosa dos milhares de infográficos pipocando nas páginas de jornais e da internet todos os dias. Mas, parando pra pensar, percebi que a qualidade sofrível era efeito de uma única causa: a falta de orientação e instrução. Bingo! As pessoas, meios de comunicação, ongs, empresas e meio mundo querem produzir infográficos mas não possuem o conhecimento básico de como fazê-lo e, por isso, a chuva de infográficos e visualizações saídos de um pesadelo no que diz respeito tanto a forma quanto a função.

Hoje, temos  pouco ensino formal da infografia  no meio acadêmico. Um dos raros exemplos que conheço é o trabalho incrível e primoroso de Alberto Cairo no sentido de instruir formalmente dentro das instituições, inclusive em cursos online pioneiros.

Quando o assunto é Brasil, a coisa fica ainda pior. Os cursos de jornalismo não estão preparados para o ensino da infografia. E isso é uma questão perfeitamente compreensível já que a infografia é uma área multidisciplinar. O sujeito infografista é alguma coisa indefinida entre design, jornalismo e tecnologia da informação (e provavelmente muitas outras áreas afins). A própria prática da infografia, principalmente a interativa, envolve especialidades e conhecimentos distintos. Um bom infográfico ou visualização de dados irá envolver jornalistas, especialistas em análise de dados, designers, ilustradores e programadores para que se tenha um resultado efetivo e que conte de fato uma boa história.

Esse espaço foi criado justamente para tentar, minimamente, levar todo o conhecimento possível a quem deseja estudar, entender e trabalhar com o tema. No lugar de ficar batendo na cara de quem faz infografia ruim, a missão aqui é tentar guiar, ensiar e também aprender.

Nas poucas palestras que tive a honra de falar sobre o tema, sempre comecei com essa pequena provocação: Infografia não é arte. Infografia é, acima de tudo, jornalismo, fatos, datos e boas histórias para se contar. A forma não deve determinar a função. Infografia não serve para deixar uma pauta ou matéria mais bonita. Se sua matéria precisa de uma flor em cima para ficar atraente, ela é ruim e desinteressante. Alberto Cairo, em seu espetacular livro “The Functional Art” (leitura recomendadíssima) toca nessa questão crucial. A infografia, acima de tudo, deve informar de maneira clara e objetiva. Também temos aqueles que defendem que a infografia pode ser arte. E sim, pode! Mas não como meio de comunicação e sim, de expressão. Jaime Serra (eleito o infografista mais influente nos últimos 20 anos no prêmio Malofiej) provou brilhantemente que infografia pode ser arte com seu trabalho primoroso na coluna do La Vanguardia onde atua como uma espécie de cronista visual.

Outra questão muito debatida hoje em dia diz respeito as ferramentas e tecnologias. Pois bem, ferramentas e tecnologias são apenas isso: ferramentas e tecnologias. O mais importante é o resultado. Não entro nas discussões (que, particularmente acho tolas e infantis) sobre se é melhor usar o flash,  html5, gif animado, raios laser, uma britadeira ou o raio que o parta. Isso não interessa. Uma boa infografia deve informar claramente e cumprir sua função. E para isso é preciso planjamento e muito trabalho anterior a tela de um computador.  Depois de muita análise, esboços e conclusões, finalmente parte-se para buscar uma ferramenta que se adeque melhor a execução da ideia. Um infográfico  muito bem planejado, desenhado sobre um quadro negro é muito, muito mais valioso que um infográfico equivocado elaborado com as mais modernas tecnologias que planeta terra pode oferecer. Aliás, isso é um erro crasso que vejo muito nos dias atuais. A preocupação excessiva com o “como fazer” se sobrepondo ao “o que fazer”. Isso resulta em visualizações deficientes, muitas vezes recheadas de erros grotescos pois a preocupação maior está apenas na execução, no meio e não no fim. Tenho visto o resultado de muitos hackatons por aí que deixam qualquer infografista de cabelo em pé. Uma escovação de bits infindável para produzir um resultado, geralmente, pífio.

Outra bola da vez da qual muito se comenta hoje é a tal da era dos dados. Explico. Hoje temos uma infinidade de dados incrível a nosso dispor. Tudo sobre tudo é guardado em algum lugar. E isso remete a grande onda atual: o famigerado BIG DATA. Segundo os entusiastas, os dados vão salvar o mundo, as árvores e as baleias. Especialistas em BIG DATA (seja lá o que isso signifique) são contrados a peso de ouro. Os governos abrem seus dados e todos aplaudem como se isso fosse mudar o mundo da noite para o dia. Eu lamento, mas isso não vai acontecer tão cedo. Dados isolados não são nada. É preciso contexto, cruzamento, interpretação e análise. Esse é outro grande erro que vemos solto ao vento todos os dias: dados sem nenhum tipo de cruzamento, absolutos como se fossem grandes verdades, ignorando dados correlacionados que podem mudar completamente a interpretação de uma visualização.

Uma pequena metáfora idiota para entender a questão do BIG DATA e dos dados abertos. Imagine que os dados são alimento e que o grande problema do mundo é a fome. Ótimo, temos um começo. Digamos que todos os dados (alimento) do mundo agora são acessíveis para todos. Oba! Ninguém mais passa fome. Não. Errado. O alimento (assim como os dados) está em seu estado “cru”: plantações de soja, rebanhos de gado (pra quem curte carne vermelha sem ressentimentos), frutas e assim por diante. O ponto onde quero chegar é que esse suposto alimento acessível para todos (os dados) não está tão acessível e fácil assim. Ainda é preciso tratamento, logística de distribuição, processamento e tantas outras coisas até chegar a boca dos cidadãos famintos. É preciso pensar onde os dados são mais necessários e urgentes, é preciso cruzá-los com outras informações para, de fato, se ter um quadro de como matar a fome no mundo de forma prática e eficiente. Portanto, a grande questão é que dados em seu estado cru, mesmo que acessíveis a todos, não servem pra muita coisa.

Por fim, é isso. Tem muita polêmica e muita discussão saudável pela frente. Espero que todos gostem e participem. Lembrando que a intenção aqui não é vomitar regras e falar para especialistas. O objetivo maior é levar conhecimento básico para quem não sabe nada e está dispoto a debater e aprender. A intenção é explicar tudo desde o princípio entrando em questões como ética jornalística, design, boas práticas e mais um sem número de questões. Espero sinceramente que todos curtam e façam bom proveito. Um abraço e até a próxima.

Lição número 1:
– Infografia é multidisciplinar
– Forma não deve ditar a função. Infografia não é enfeite.
– Ferramentas são apenas ferramentas. Escolha a que melhor atenda a sua ideia/projeto
– Desenhe, esboce e fique longe do computador até ter uma boa compreensão de que história você quer contar e como quer contar
– Dados não são nada sem contexto, análise, cruzamento e interpretação
– Acabar com a fome no mundo não é tarefa fácil

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